Era uma tarde de agosto de 1944, ela estava na cozinha lavando os pratos da refeição que fizera, pensava que quando seu amado voltasse, nunca mais faria uma refeição sozinha.
Ele e ela tinham se casado na primavera. O outono trouxera as folhas alaranjadas que caiam no quintal e uma convocação. Ela achou que esse dia nunca chegaria, o dia em que pousou a mão no rosto dele, olhou em seus olhos como se fosse a última vez que os fosse ver, e disse a frase clichê de toda mulher apaixonada, mas que para ela eram palavras sinceras. Ele prometeu que voltaria, que teriam uma família, que fariam todas as refeições juntos até ficarem enrugadinhos e Deus levasse um deles. Mais de um ano se passou.
Bateram na porta, ela achou que era o carteiro, porque a caixa de correio estava quebrada e ele tinha que entregar as cartas em suas mãos. Era um senhor de uniforme, mas não de uniforme de carteiro. Era um oficial. Ele estendeu a carta para ela com a formalidade e frieza de todo oficial que faz esse tipo de serviço.
Com uma mão ela segurou a carta, com a outra tampou os olhos que já saiam lágrimas. Aos poucos caiu de joelhos nos pés do oficial. Ela chorava e soltava questionamentos entre soluços. O oficial não sabia se ela estava questionando ele, Deus, o amado que partira, ou ela mesma. Uma compaixão possuiu o oficial que timidamente colocou a mão sobre a cabeça da moça e disse que sentia muito. Retirou a mão e foi para o carro, ele era um mensageiro da morte e jovens viúvas aguardavam seus serviços.
E ela permaneceu sentada no chão da varanda, sentindo a brisa bagunçar seus finos cabelos enquanto as costas das mãos enxugavam as lágrimas que caiam. Ficou ali até escurecer. Levantou-se para esquentar os restos do almoço, colocou um prato na mesa e se deu conta que nunca mais faria uma refeição a dois.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
-"A culpa não é minha!"
Foi o que ela disse pra mim. Que a culpa dela ser mimada, egoísta e problemática, era dos pais, de Deus e da vida.
-E o que vc disse pra ela?
-Que a culpa dela ser assim podia mesmo ser de todos eles. Mas que a culpa dela continuar assim era dela mesma. Você pode nascer cheio de defeitos, mas isso não significa que precisa morrer com todos eles.
-Hum... E ela?
-Se calou por um instante, me xingou e foi embora.
-Acha que ela volta?
-Não sei, demora para se digerir a verdade.
-E o que vc disse pra ela?
-Que a culpa dela ser assim podia mesmo ser de todos eles. Mas que a culpa dela continuar assim era dela mesma. Você pode nascer cheio de defeitos, mas isso não significa que precisa morrer com todos eles.
-Hum... E ela?
-Se calou por um instante, me xingou e foi embora.
-Acha que ela volta?
-Não sei, demora para se digerir a verdade.
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